sábado, 4 de fevereiro de 2017

FHC, um último ato de decência

Por Fernando Castilho


Foto: Ricardo Stuckert


Lula o recebeu com um abraço fraternal, daqueles velhos tempos, esquecendo-se de toda injustiça e maldade que o senhor tem praticado contra ele. Todos vimos as fotos.


Caro Fernando Henrique Cardoso.

O senhor foi, ao lado de Lula e de outros, importantíssima voz na luta pela volta da Democracia ao participar das Diretas Já.

Apareceu em várias fotos ao lado de Lula. A esquerda com um intelectual e um operário unidos, enfim estava bem representada.

Mais tarde, ao assumir a presidência do Brasil, o senhor nos orientou a esquecer tudo aquilo que escrevera (alguma coisa era plágio mesmo e deveria ser esquecido).

O recado estaria mais completo se o senhor pedisse também que esquecêssemos seu posicionamento à esquerda dos tempos da USP, pois o senhor se tornou neoliberalista, passando para o lado escuro...

Tudo bem, Fernando Henrique, as pessoas mudam mesmo com o tempo.
Mas, com quantos anos o senhor está mesmo? Ah, 85 anos. Bem vividos, decerto.

Fernando, o senhor conhece muito bem Lula, não?

O senhor sabe que ele não é culpado das acusações que Moro lhe impinge, não sabe?

O senhor, como Lula, também foi obrigado a ser fiel depositário dos presentes que ganhou durante seu mandato, mas nem por isso foi a Moro para explicar ao juiz os trâmites burocráticos próprios dessa situação.

O senhor, assim como Lula, criou seu instituto após terminar o mandato e dá palestras recebendo pagamento justo por elas, mas nem por isso se dispôs a ir a Moro dizer que esse procedimento é normal.

Não, o senhor preferiu, num artigo escrito para a Folha de São Paulo, afirmar que as acusações que pairam sobre Lula são gravíssimas e que ele teria que provar sua inocência diante de Moro.

O senhor não é amigo dele. Amigos socorrem amigos.

O senhor sabe que ele é inocente, não sabe?

Afinal, o senhor também foi presidente, lidou com o Legislativo e o Judiciário, conhece todo mundo que divide o poder no Brasil. Sabe quem são os verdadeiros corruptos, inclusive, de seu partido.

O senhor sabe que a esposa de Lula, Marisa Letícia, pode ter sofrido o AVC devido à insuportável pressão que Lula, ela e seus filhos vêm sofrendo há 3 anos, pela perseguição implacável de Moro, não sabe?

Pois o senhor foi ao hospital em que Marisa jazia já morta, para oferecer suas condolências a Lula.

Lula o recebeu com um abraço fraternal, daqueles velhos tempos, esquecendo-se de toda injustiça e maldade que o senhor tem praticado contra ele. Todos vimos as fotos.

85 anos o senhor tem, não Fernando Henrique Cardoso?

Marisa Letícia se foi aos 66 anos, vítima de um AVC.

A expectativa de vida do homem brasileiro gira em torno dos 73 anos, portanto, Fernando, o senhor já está no lucro.

Nem sempre é verdadeira a crença que diz que o homem se torna sábio com o tempo.
Não está acontecendo com o senhor.

Fernando, creia, não somos eternos neste mundo, como o senhor talvez confie.
E o que o senhor deixará, além da presidência que exerceu? Esta imagem?

É tão difícil para o senhor protagonizar um ato de grandeza agora, já?

Por que não fazer um pronunciamento à mídia e à Nação, em defesa de Lula?

Os tucanos iriam execrá-lo?

O senhor perderia sua condição de oráculo no ninho?

Às favas, presidente! Eles não merecem nada, o senhor sabe.

Um último ato de grandeza para passar à sua biografia, presidente. Posso ser um tolo, mas ainda acredito nas pessoas.

A decência lhe cairia bem, creia.



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Marisa Letícia Lula da Silva

Por Fernando Castilho




Morte cerebral. Marisa Letícia se foi.

Neste momento em perdemos uma pessoa que, embora tenha sido alçada à posição de primeira-dama, nunca deixou de ser aquela Marisa simples dos tempos da luta contra a ditadura. Pelo contrário, sempre foi avessa aos luxos que a posição lhe propiciava.

Somente por isso, Marisa deveria ser admirada por todos os brasileiros, quer gostem de Lula ou não.

Mas Marisa teve origem pobre, foi operária como seu marido e jamais poderia ser admitida como primeira-dama, afinal, primeiras-damas têm aspecto jovem, são bem maquiadas e bem vestidas, algumas muito jovens até.

Marisa tinha as rugas a que sua idade e sofrimento faziam jus.

Marisa não cometeu crime algum, foi senhora decente até o fim. Mas depois que ela e seu marido passaram a ser perseguidos implacavelmente por acusações sem provas, que seus filhos tiveram suas reputações destruídas após suas inocências terem sido provadas mas nunca divulgadas por nossa mídia, sua vida entrou num torvelinho.

Admoestada em todos os lugares em que não havia o povo, este sim, afável a ela, mas só aquela classe média que acha que é elite, Marisa, que, embora forte, não tem a mesma resistência de Lula, sucumbiu.

Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, afirma que o brasileiro é um homem cordial.

Por muito tempo se interpretou “cordial” como afável, generoso, até bom.

O tempo mostrou que Sérgio Buarque quis dizer na verdade que o brasileiro é um homem que coloca o coração (que tem raiz na palavra “cordial”) à frente da razão. Para o bem ou para o mal.

O brasileiro de classe média, leitor assíduo dos jornais, frequentador das redes sociais, cristão e amante dos pets, que coloca o coração (desta vez para o mal), à frente da razão, afirmou que a doença de Marisa era fingimento para que Lula se vitimasse na Lava Jato.

Pior, esse brasileiro, fascista, desejou que Marisa fosse para o inferno, eu li isso e coisas piores nos comentários nos jornais.

Milhões de brasileiros, muito mais dignos, certamente ficarão consternados ao tomar conhecimento da notícia.

Mas os fascistas nunca passarão.

Que os átomos que compõem o corpo de Marisa se rearranjem um dia em flores e tragam alegria, prazer e felicidade, significado de Letícia em latim.



quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

E chamaram a isso de direito divino à propriedade

Por Fernando Castilho



Foto: @MídiaNINJA




Leis foram criadas para defendê-los.
E eles passaram a ter esse Direito. 
E chamaram a isso de direito divino à propriedade.


Ano 10000 a.C. Um dia de sol.

Um Homo Sapiens saiu rotineiramente para coletar e caçar quando se deparou com uma área de vegetação abundante, fértil. Lá havia tubérculos, verduras, frutas e até trigo.

Resolveu dar um tempo em seu nomadismo e ficar por ali mesmo.

Logo percebeu que naquele solo bastava jogar algumas sementes ou cavar alguns buracos e enfiar umas mudinhas que em pouco tempo tudo se multiplicava.

Estava inventada a agricultura. E com ela, a propriedade.

Logo em seguida forasteiros iriam querer comer daquilo que ele plantara. Era natural para eles, afinal, a terra nunca tivera dono.

Mas o Sapiens que cercou a área reagiu com violência.

Começava aí um período difícil para a Humanidade.

Se antes não havia porquê brigar, afinal, não havia posses, agora era uma guerra de todos contra todos.

Foi preciso que um terceiro elemento fosse criado para intervir nos conflitos: o Estado. O leviatã.

Ao longo do tempo, até os dias de hoje, o Estado ficou do lado daqueles que, como o primeiro Sapiens, cercou um pedaço de terra e se afirmou como proprietário.

Leis foram criadas para defendê-los.

E eles passaram a ter algo que foi chamado de Direito. Direito à propriedade. Direito divino à propriedade.

Não há dúvida de que, quem nasce hoje, praticamente já tem em seu DNA esse conceito pronto.

Ensinamos isso aos nosso filhos.

O sistema ensina isso aos nossos filhos.

E eles também lutarão por esse direito.

E defenderão esse direito. Afinal, ser contrário a esse direito é ser comunista, lhes ensinamos.

E ficarão do lado de quem tem esse direito.

Mesmo que essa pessoa não plante nada na terra.

Mesmo que essa pessoa não crie nenhum animal nesse terreno.

Mesmo que essa pessoa não construa nada que possa de alguma forma contribuir para a Humanidade nessa propriedade.

Mesmo que a terra permaneça vazia por 30 anos. Sem uso.

E quando aqueles que, como o antigo Sapiens, não conseguiram cercar nenhum pedacinho de terra para plantio, constroem um barraquinho nesses terrenos são expulsos violentamente pelas forças da Lei.

E quando outros que haviam há décadas construído suas moradias em terrenos que um dia cercaram nos rincões distantes do Brasil, acabaram expulsos de lá por gente poderosa e tiveram como única opção construir seus barracos em um terreno não ocupado durante 30 anos, foram desalojados de lá pela polícia que defende o direito de propriedade.

Homens, mulheres, crianças, bebês de colo, idosos, doentes, deficientes, mais de 3000 pessoas, todos jogados nas ruas de São Paulo como lixo humano, escória de uma sociedade que se julga eugênica, mas ela própria, a verdadeira escória cheirosa.


domingo, 18 de dezembro de 2016

Troquem o juiz!

Por Fernando Castilho







Ah, mas então quer dizer que você é contra a Lava Jato???

- Claro que não! Sou contra:

  1. Afundar as empreiteiras envolvidas, acabando com a capacidade do Brasil em construir obras de grande porte e extinguindo milhares de postos de trabalho. Sou a favor de condenar e prender os empreiteiros.

  1. Prender os empreiteiros por mais de um ano para forçá-los a delatar até suas mães, quando a Lei prevê no máximo 10 dias para prisões preventivas.

  1. Conduzir pessoas coercitivamente com ampla divulgação midiática para destruir suas reputações perante a opinião pública.

  1. Fazer vazar escutas telefônicas e depoimentos à imprensa, segundo o desejo de pré-condenar aqueles que convém ao juiz.

  1. Fazer escutas telefônicas não autorizadas pelo Supremo, de forma ilegal.

  1. Um juiz que conduz uma operação de tanta importância NÃO PODE ter conversinhas de pé de ouvido, acompanhadas de risadinhas cúmplices com políticos citados inúmeras vezes e muito menos deixar-se fotografar fazendo isso.

  1. Um juiz comandante da operação NÃO PODE proibir a defesa de se manifestar durante os depoimentos de testemunhas.

  1. Um juiz da Lava Jato NÃO PODE perguntar a opinião de uma testemunha durante um depoimento.

  1. É inconcebível que um juiz tenha que, todos os meses, viajar para os Estados Unidos para prestar contas à CIA de processo que está comandando em seu país.

  1. Um juiz NÃO PODE defender um projeto de lei para lhe conferir o direito de cometer abuso de autoridade.

Ou seja,o problema da Lava Jato é só o juiz que a comanda.

Troquem o juiz por outro que se guie estritamente pelo cumprimento do que consta na Constituição e no Código Penal, que passo a ser totalmente favorável à Lava Jato.


domingo, 4 de dezembro de 2016

O rompimento do Contrato Social no Brasil pode nos levar à barbárie?

Por Fernando Castilho






A partir do momento em que o Estado se desfaz de suas obrigações que lhe são precípuas desde a “assinatura” do Contrato Social, ele deixa de cumpri-las de maneira unilateral.Começa a existir, portanto, o risco da volta à barbárie.
E já começamos a observar os indícios aqui e ali.

O filósofo Thomas Hobbes (além dele, John Locke e Jean Jacques Rousseau) nos ensina que quando o homem (homo sapiens), que vinha de um estado de natureza, começou a tomar posse de pequenos pedaços de terra para se tornar agricultor, passando, portanto a ser sedentário, atraiu para si indignação, ódio e cobiça.

Os seres humanos, até então, eram caçadores-coletores, portanto, não viam nenhum sentido em uma pessoa cercar um pedaço de terra e assumir ser seu proprietário. A Terra era de todos os seres vivos.

A partir daí, uma série de conflitos passou a existir entre os homens, já que não havia o direito à propriedade.

Alguém se aproximava e roubava um tubérculo, uma hortaliça ou até mesmo um pequeno animal que o outro possuía.

A resposta era violenta e desproporcional. Matava-se por algumas batatas roubadas.
Aquele que era o mais forte ou mais esperto prevalecia sobre o mais fraco, dando início ao que Hobbes chama de guerra de todos contra todos.

Foi preciso que os seres humanos buscassem segurança.

Mas quem poderia garantir isso?

Somente um Estado. Um Estado forte que produzisse leis e as executasse punindo os infratores.

Só assim, os seres humanos poderiam se sentir mais seguros e dormir em relativa paz.
Estava criado o Leviatã, como Hobbes chamou o Estado.

Não defenderei aqui Estados totalitários, ok?

A esta relação Estado-seres humanos, foi dado o nome de Contrato Social.
Eu pago um imposto a um rei e ele me garante a segurança.

O Estado evoluiu com o tempo.

Agora não é mais só a segurança que o Estado tem que garantir aos homens, mas sim também moradia, alimentação, saúde, educação, enfim Direitos Humanos.

Os seres humanos, através do Contrato Social, pagam seus impostos e recebem do Estado os Direitos Humanos. Ótimo. Perfeito, não?

No Brasil o cumprimento do contrato pelo Estado sempre foi deficiente, porém, apesar de ruins, a Saúde e a Educação públicas existem.

O programa de construção de moradias para a população de baixa renda, Minha Casa Minha Vida também vem dando uma resposta do Estado ao deficit de habitações.

Políticas de transferência de renda como o Bolsa Família, garantem a famílias de baixíssima renda uma complementação para que possam se alimentar um pouco melhor.

A promoção de 35 milhões de pessoas que saíram da miséria contribuiu, embora não se divulgue, à diminuição da violência, uma vez que, pessoas melhor alimentadas tendem a não procurar outros meios de complementação de renda.

Na última década, portanto, pode-se dizer que o Estado brasileiro, apesar de muitas falhas e muitos problemas, procurou cumprir o contrato Social.

Antes desse período, o neoliberalismo vinha destroçando o país com privatizações extremamente danosas ao país.

É este mesmo neoliberalismo que agora volta com força total.

Neoliberalismo, por definição, é um sistema econômico que transforma o Estado em estado mínimo.

Já dá pra perceber.

A partir do momento em que o Estado se desfaz de suas obrigações que lhe são precípuas desde a “assinatura” do Contrato Social, ele deixa de cumpri-las de maneira unilateral.

Quando a classe média e a elite brasileiras adquirem imóveis em condomínios fechados, pagando altos preços por segurança privada, livram o Estado de sua obrigação de lhes garantir segurança;

Quando essas mesmas classes colocam seus filhos em colégios particulares e pagam planos de saúde, também liberam o Estado de suas obrigações.

Essas classes, portanto, não percebem que elas mesmas descumprem o Contrato Social e só perdem com isso pois têm que gastar mais dinheiro.

O Estado, por sua vez, ao propor privatizar serviços que deveriam ser prestados por eles aos cidadãos, também rompem o Contrato.

Vivemos no Brasil um processo atroz de destruição de um pacto de convivência acordado há milênios.

O neoliberalismo não deu certo em nenhum país do mundo, ao contrário, está afundando as economias da Europa.

Foi a sanha de voltar a tentar implantar o neoliberalismo que mandou no Brasil durante o governo FHC que fez com que um grande consórcio comandado pelos Estados Unidos, como muito bem foi denunciado pelo grande cientista político, Moniz Bandeira, armasse e conduzisse o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff.

Quando o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, presidiu as sessões do Senado que consagraram o impeachment à presidenta Dilma Rousseff, sem que restasse provado crime de responsabilidade, ficou claramente demonstrado que o órgão que tem a responsabilidade de garantir que a Constituição seja respeitada, prevaricou. O ministro haverá de entrar para a História.

Uma vez derrubada a presidenta, a grande pedra no sapato do projeto neoliberalista, um títere seria alçado ao poder com mandato provisório, com prazo de validade curto. Michel Temer.

Uma vez rasgada a Constituição, todo o arcabouço legal passa a ser desrespeitado. O juiz de 1ª instância de Curitiba foi um dos primeiros a desrespeitar a Constituição e o Código Penal Brasileiro ao manter empresários em prisão preventiva por mais de um ano, quando eles não poderiam ser mantidos por mais de 10 dias! A razão dessas prisões é óbvia. Eles, habituados à uma vida de conforto, ficam privados de quase tudo.

Certamente, uma hora hão de delatar até a mãe para fugir de seu “inferno”. A isto se chama coação.

Moro ao conduzir coercitivamente Lula para um depoimento feriu gravemente a Lei pois o ex-presidente teria que ser intimado e, caso não comparecesse, aí sim, teria que ser conduzido.

O juiz ainda deixou vazar as conversas telefônicas entre Dilma e Lula, procedimento totalmente irregular.

Agora, Moro e os procuradores da Lava Jato querem adquirir poderes acima da Lei.

Abuso de autoridade é crime e tem que ser passível de pena.

Enfim, depois de rasgada a Constituição, rasga-se também o contrato Social entre o Estado e os brasileiros.

É por isso que esses juízes e procuradores já começam a lutar.

É guerra de todos contra todos e a barbárie lentamente voltando a ser instaurada.

O fato de uma manifestação ser convocada para dar apoio às medidas antidemocráticas e autoritárias de Moro e dos procuradores têm significado muito maior do que conseguimos captar no momento.

Trata-se da volta do fascismo e impossibilidade de convivermos civilizadamente com nossas diferenças.

Manifestações de ódio e misoginia cometidos no Natal e no réveillon não são fatos isolados.

O massacre de 60 homens no presídio de Manaus demonstra cabalmente a falência do Estado que, ao invés de garantir a integridade e segurança dos presos, repassou a responsabilidade para a iniciativa privada que, na sanha de aumentar seus lucros, colocou lá dentro 60% a mais de homens do que suporta sua capacidade.

Rolará muito sangue ainda.

É inevitável. Tudo conduz a isto.

(atualizado em 04/01/2017)




sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Brasil rasga o Contrato Social

Por Fernando Castilho


As pessoas comuns ainda não perceberam o estrago causado ao Brasil pela insensatez e inconsequência de quem saiu às ruas e foi usado pelos bandoleiros que agora mandam no país e querem se livrar da cadeia e prosseguir na sua sanha de tomar a res publica para si próprios.


Quando a Democracia e a Constituição foram aviltadas durante o golpe contra Dilma, eu e muitos aqui alertamos que uma vez que um boi passou, uma boiada inteira iria querer passar também.

É o que estamos vivendo neste momento.

As instituições emperraram totalmente.

Já não há mais a referência da Carta Magna a ser seguida.

Sem ela, juízes e procuradores se sentem no direito de arbitrar.

É por isso que Moro e Dallagnol estão chantageando o Congresso exigindo poder para descumprir leis em momentos que lhes sejam convenientes.

Juízes, pela sua origem, são pessoas que TÊM o dever de seguir estritamente o que diz a Constituição e o Código Penal, NÃO PODENDO, de forma alguma ultrapassar seus limites, o que seria uma ilegalidade.

Neste sentido, magistrados, homens da lei, querem poder ser bandidos quando lhes aprouver.
Absurdo maior nunca vi na vida.

A grande maioria dos congressistas brasileiros não merece nem cumprir o papel de cocô do cavalo do bandido, mas neste aspecto, apesar da motivação de se blindarem da Operação lava Jato, eles estão certos.

Moro e os procuradores têm plena condição de seguir com a Lava Jato dentro da lei e oficializar as delações premiadas da Odebrecht, que certamente vão derrubar pelo menos um terço dos bandidos do Congresso e atingirão também Temer e seus asseclas.

Mas como tudo foi posto de pernas pro ar desde o golpe, não há como ter segurança de mais nada.

O Contrato Social que nos tirou da barbárie no passado foi rasgado e agora será guerra de todos contra todos, como diria Hobbes.

As pessoas comuns ainda não perceberam o estrago causado ao Brasil pela insensatez e inconsequência de quem saiu às ruas e foi usado pelos bandoleiros que agora mandam no país e querem se livrar da cadeia e prosseguir na sua sanha de tomar a res publica para si próprios.


Nunca pensei que viveria algo tão terrível assim.

Qual é a minha Lava Jato do coração?

Por Fernando Castilho




A Operação Lava Jato poderia ser um ganho imenso ao Brasil. Porém, da maneira como está sendo conduzida, ao final, o saldo poderá ser mais negativo que positivo.

Sou inteiramente a favor da Lava Jato desde que:

1 - Seja imparcial, convocando TODOS os citados em delações premiadas, independentemente de partidos políticos para depor.

2 - Se atenha estritamente ao cumprimento das leis, não procedendo à gravações de áudio desautorizadas, não exigindo conduções coercitivas sem os fundamentos legais e não mantendo suspeitos em prisão temporária por mais de dez dias.

3 - Puna os presidentes e diretores de empresas corruptas mas não impeça as empresas de continuar existindo, sob pena de destruí-las causando enorme desemprego e facilitando que empresas estrangeiras se lhes ocupe o espaço.

4 - Deixe de utilizar a mídia para vazamentos de conteúdos mantidos sob sigilo de Justiça, segundo conveniências de preferências político-partidárias de juízes e procuradores.

5 - Revele ao Congresso e ao povo brasileiros a relação entre a operação e os Estados Unidos, sob pena de desconfiança de espionagem e traição.

6 - Faça acordos de delações mais proporcionais e justos. Delatores como Alberto Youssef e Paulo Roberto da Costa, pegaram penas mínimas e as cumprirão em muito cômoda situação. Isto causa desconforto na população, que quer ver bandidos de colarinho branco cumprindo penas de verdade e não de mentirinha.

7 - Quando o juiz errar, como no caso dos dois diretores de uma das empreiteiras envolvidas, quando Moro condenou um deles à pena de prisão por 11 anos e depois um desembargador em 2ª instância o inocentou, venha a público inocentá-lo. Um desses diretores teve sua vida pessoal e profissional destruída devido ao erro do juiz Moro, que não pediu desculpas.

8 - Os juízes e procuradores parem de se considerar acima das leis. Ninguém pode ser.


9 – Seja totalmente transparente. Que se crie um Portal da Transparência da Lava Jato.

sábado, 26 de novembro de 2016

Brindemos a Fidel com cuba libre!

Por Fernando Castilho





Fidel faleceu.
Não nos entristeçamos pois a vida não passou por ele mas ele passou pela vida.
Fidel fez de sua vida um aríete contra a ditadura sanguinária de Fulgêncio Batista na época em que Cuba era apenas um quintal dos Estados Unidos.

A Revolução mudou totalmente a vida do povo cubano.

Não pensem que foi fácil.

O povo cubano, mesmo Cuba sendo uma pequeníssima ilha, mesmo com embargo econômico mundial, possui saúde e educação de primeiro mundo e um Índice de Desenvolvimento Humano (67), acima do Brasil (75).

Alguns se apegarão aos carros antigos de Havana. Me poupem.
O fato é que Fidel, mesmo tendo levado uma vida extremamente
sacrificada durante as guerrilhas em Sierra Maestra e mesmo depois para consolidar o regime, conseguiu chegar aos 90 anos, mesmo tendo sobrevivido a 638 atentados cometidos pelos Estados Unidos!

Portanto, neste dia, temos é que comemorar a vida deste grande líder latino e não lamentar.

A bebida apropriada talvez seja a Cuba Libre, que encaro como uma espécie de deboche já que leva rum cubano, coca-cola (símbolo do capitalismo derrotado em Cuba), gelo e limão.

Comemoremos, pois!

domingo, 20 de novembro de 2016

Por que os governos neoliberais gostam tanto do desemprego?

Por Fernando Castilho






Alto índice de desemprego significa trabalhador com medo de ser demitido, portanto, torna-se muito difícil para os sindicatos organizarem greves, protestos ou manifestações por melhores salários e condições de trabalho. Ou seja, é neste contexto que os empregadores podem aumentar a exploração sobre o trabalhador.


Percebam que quando a mídia fala em aumento do desemprego, é só uma retórica visando fritar governos.

A mídia nunca está preocupada com aumento de desemprego.

Assim como os governos neoliberais.

O desemprego é um dos motores do capitalismo, portanto, do neo-liberalismo.

Quando o indivíduo está desempregado, fica muito difícil ele se organizar em movimentos ou sindicatos para reivindicar.

Alto índice de desemprego significa trabalhador com medo de ser demitido, portanto, torna-se muito difícil para os sindicatos organizarem greves, protestos ou manifestações por melhores salários e condições de trabalho. Ou seja, é neste contexto que os empregadores podem aumentar a exploração sobre o trabalhador.

Numa situação de pleno emprego, pelo contrário, o trabalhador pode se dar ao luxo de recusar a executar tarefas que não constam de seu contrato de trabalho. Além disso, pode a qualquer momento trocar de emprego para buscar uma melhor condição de trabalho ou de salário.

Como passa a haver uma disputa entre as empresas para manter um bom funcionário, a tendência é de que os salários aumentem.

Nada disso é interessante ao capitalismo e ao neoliberalismo.

Em 2014 o Brasil praticamente chegou a uma condição de pleno emprego (4,3%) e todos nós vimos o que aconteceu.

Enquanto tínhamos motivos para comemorar, a mídia logo tratou de inventar (sim, naquela ocasião foi no início mesmo uma invenção) uma grave crise econômica cuja grande responsável era a presidenta Dilma, mesmo sendo ela reconhecida como ótima gestora.

A Fiesp, inconformada com o baixo índice de desemprego, tratou logo de financiar o golpe que iria tirar Dilma da presidência.

Pouco antes da derrubada de Dilma, os índices de desemprego voltaram a subir, mas nada comparável a Espanha, por exemplo.

Agora, com um governo usurpador e ilegítimo pós golpe, esses índices são alarmantes mas não vemos a mídia se incomodar com isso, por enquanto, tanto é que não são nem divulgados.

Fechamos agosto com 11,6%, na saída de Dilma, mas aguardamos ansiosos o índice do trimestre que fecha neste mês de novembro.

Só não sabemos se serão divulgados.

O governo Temer TEM que ser esticado até o fim do ano porque o golpe só pode ser concluído em 2017.

Explico: se o governo Temer cair em 2016, haverá eleições diretas para presidente. Lula poderá concorrer porque não foi condenado e certamente vencerá.

Se Temer cair em 2017 as eleições serão indiretas e quem votará serão os deputados federais.
Mamão com açúcar para os tucanos.


Portanto, aguardemos para 2017 as manchetes em letras garrafais sobre o “insuportável aumento do índice de desemprego que este governo incompetente não conseguiu conter”.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Paulo Freire nos ensinou mas não aprendemos

Por Fernando Castilho





''Olha, filho, não adianta. Político nunca olhou pra pobre e nunca vai olhar. Nós nascemos nessa desgraceira dessa vida e vai ser assim até o fim.''

O ano era 1989.

Lula estava em campanha para a presidência.

Eu fazia porta de fábrica na divisa com o município de Taboão da Serra.

Sentadas na calçada, em seu horário de almoço, duas operárias aparentando uns 50 anos.

Ao abordá-las, uma delas disse-me algo que nunca esqueci: ''olha, filho, não adianta. Político nunca olhou pra pobre e nunca vai olhar. Nós nascemos nessa desgraceira dessa vida e vai ser assim até o fim.''

Aquilo acabou com o meu dia.

Anos mais tarde, ao deparar-me com a obra de Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido, percebi que ele repetia, com outras palavras aquilo que a operária me dissera.

Há um dogma que o capitalismo passa aos pobres de pai para filho. O de que o fato de ter nascido pobre é como um desígnio de Deus. Portanto, é natural que ele aceite sua sina.

Então, a luta pela melhoria de sua situação no mundo é inglória e ele deve aceitar este fato com resignação.

Ao ver a direita vencer as eleições com tanta força em São Paulo, vejo que a operária e Paulo Freire nunca tiveram tanta razão.

Ficamos muitos de nós, do polo progressista, nas redes sociais e nas ruas, batalhando por um futuro melhor do povo paulistano, tentando reeleger um prefeito que possa fazer mais pela cidade e seus cidadãos.

Mas este povo, ao invés de juntar-se a nós, prefere simbolicamente dar o troco no partido do prefeito, que julga ser o único corrupto do país, coisa que a mídia lhe ensinou.

Mas Paulo Freire escreveu sua obra justamente para tentar por um fim nesse determinismo. Sua obra é libertadora.

Sinto que o erro da esquerda foi o de não fazer um trabalho junto ao povo para mostrar sua força. Nós não fomos libertadores, não formamos lideranças, não fortalecemos os movimentos sociais. O resultado está aí: Votação expressiva de Dória até na Zona Norte, onde sempre fomos fortes.

Serão dois anos de Dória na prefeitura. Depois ele sai para ser governador, enquanto Alckmin sai para ser presidente. Em seu lugar, fica Bruno Covas.

Dois anos de desmonte de tudo quanto é avanço. Um retrocesso.

Dois duros anos.

E nós, do campo progressista, o que faremos?

Continuaremos na quase desanimadora tarefa de tentar botar na cabeça do pobre que...ele é pobre, e pobre não pode esperar nada de governante rico.


A não ser descaso.